A origem da lenda. Conheça a história de Kara Veia!

Cantor deixou um grande legado para o forró de vaquejada

Publicado 27/03/2026 às 14:12
Atualizado 30/03/2026 às 14:51
Redação Forró Nordeste
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Kara Veia é, sem dúvida alguma, um dos maiores nomes da história do forró de vaquejada ao lado de nomes também históricos como o de Vavá Machado, mas muitas vezes tudo o que se sabe sobre a vida dele é que ele gostava de vaquejada e conseguiu fazer sucesso com algumas músicas, mas tudo vai muito além disso. Kara Veia foi um grande marco no forró de vaquejada, seja pelas músicas, pela seu legado, pelo jeito de fazer forró ou por toda a sua história. E é por isso que, nesta quinta-feira (27), dia em que completamos 22 anos da sua partida, trago um pouco da história desse grande artista alagoano. 

Antes de começar, é importante ressaltar que tudo que contarmos aqui são histórias baseadas em relatos de três pessoas que foram muito importantes e, de certa forma, também foram uma base na vida do artista. A primeira delas é Nilda Félix, esposa de Kara Veia e mãe de quatro das cinco filhas do cantor. E aqui também cabe esclarecer uma injustiça das redes sociais. Muita gente diz que a tragédia aconteceu por culpa dela e essa é uma história que, erroneamente, se espalhou pelas redes sociais. Nilda, na verdade, foi uma grande parceira do artista desde a sua adolescência. Mas isso nós vamos falar depois. A segunda pessoa da qual falamos é o saudoso Xameguinho, que podemos dizer que foi o grande parceiro de palco de Kara Veia, sendo sanfoneiro e produtor de muitas das músicas que fizeram sucesso. Xameguinho faleceu em junho de 2025, aos 62 anos. E a terceira pessoa é o pai de Kara Veia, que já deu entrevistas falando sobre o filho e também foi a pessoa que encontrou ele sem vida no apartamento. As histórias contadas por Nilda e Xameguinho foram ditas ao Podcast G1 Ouviu.

A INFÂNCIA

A infância de Kara Veia não foi diferente da infância de vários outros meninos que viveram nas zonas rurais do interior nos anos 70 e 80. Nascido em 73, já aos sete anos ajudava o pai no curral, tirando leite das vacas, ajudando a levar o leite para ser vendido nas fábricas e fazendo outros trabalhos do campo. Já gostava de montar em cavalos, bois e, principalmente, de cantar. De acordo com o pai, em uma entrevista dada há alguns anos, tudo que ele fazia, fazia cantando.

E foi ainda na infância que surgiu o apelido de Kara Veia. O pai e a mãe de Edvaldo, seu nome de batismo, se separaram. O pai teve uma nova esposa e durante um período, Edvaldo foi trabalhar cuidando do cavalo do irmão dessa madrasta, e o cavalo, devido a uma doença de pele que afetava a cabeça, era chamado de "Cara Veia". Em certo momento. Em certo momento, o dono do cavalo começou a brincar falando: "Kara Veia, vai cuidar do Cara Veia", e assim o apelido simplesmente pegou.

CASAMENTO E MUDANÇA PARA MACEIÓ

Parece um grande salto pular de "infância" para "casamento", mas a realidade é que Kara Veia se casou muito cedo. Ele já trabalhava com o pai quando casou com Nilda, na época os dois eram adolescentes e se conheceram justamente no campo. Ele trabalhava e ela era vizinha, sempre estava por perto. Os dois se aproximaram e, de tão novos que ainda eram, precisaram da assinatura dos pais para concluir o casamento. De acordo com os relatos de Nilda, ela tinha 16 anos e ele deveria ter 17.

Nesse tempo ele já trabalhava como vaqueiro e já escrevia suas músicas. Nilda conta que várias vezes ela assistia enquanto ele criava as músicas, apenas com a luz do candeeiro na fazenda onde moravam. Ele gostava de improvisar toadas e as pessoas o pagavam para cantar pelos sítios da região. Em certo momento da vida, decidiu que não queria mais trabalhar cuidando dos cavalos dos fazendeiros, queria viver da música. Foi para Maceió-AL com Nilda, mas viveu momentos difíceis. Por lá, trabalhou em um lava-jato, também foi servente de pedreiro e tudo isso enquanto tentava fazer shows e conseguir oportunidades. Muitas vezes, após fazer os shows, ele voltava para casa com até R$30, algo que não era o suficiente para sustentar a família. Naquela altura o cantor já tinha filhas. Ele e Lenilda, inclusive, chegaram a ter um menino, mas ele faleceu.

Em Maceió-AL, ainda de acordo com a esposa do cantor, eles só não passaram fome por causa da mãe do artista, que sempre os ajudava com o que podia. A mãe dele era diarista e sempre dava algum dinheiro, além de também ter dado moradia para eles em Maceió, já que eles não tinham como pagar aluguel e sequer como comprar comida para se alimentar. 

Sonho colorido, música que Kara Veia escreveu para a esposa:

O COMEÇO DO CRESCIMENTO

O que fez Kara Veia começar a crescer, talvez tenha sido o próprio Kara Veia. De acordo com os relatos, ele era uma pessoa desenrolada e desinibida. Entre as vaquejadas que ia, não tinha a menor vergonha de abordar políticos locais e se oferecer para cantar jingles em troca de algum dinheiro. E foi assim que ele foi vivendo inicialmente. E foi esse dinheiro que fez ele gravar seu primeiro CD, ainda em dupla, mas a gravação foi feita de forma amadora, com muitas toadas e nem teve sucesso. 

Foi aí que ele conheceu Xameguinho. E como o próprio contou, em entrevista ao G1, os shows de Kara Veia eram muito baratos e ele sequer tinha dinheiro para pagar músicos. Ele não tinha empresário, então o próprio cantor fazia essa função e vendia seus shows. Então Xameguinho teve a ideia de chamar um tecladista que não faria o show completo. Funcionava da seguinte forma: eles começavam a apresentação, tocavam de quatro a cinco músicas e depois paravam, enquanto isso, Kara Veia seguia cantando toadas e improvisos falando sobre os vaqueiros e sobre os donos das festas, ao mesmo tempo, Xameguinho já combinava com o tecladista músicas que tocariam depois deste bloco. Assim eles seguiram e as coisas finalmente começaram a melhorar, com os shows ficando mais caros com o tempo e a banda podendo incluir um baixista, baterista e guitarrista.

ENSAIO? NÃO! TUDO NO IMPROVISO

Algo interessante que o amigo e sanfoneiro contava era que eles costumavam improvisar muito, nem os músicos e nem o próprio Kara Veia gostavam de ensaiar. Então, muitas vezes eles tocavam a música do jeito que viesse na cabeça deles. E certos shows, Kara Veia simplesmente falava para Xameguinho que ia cantar uma música que nunca haviam cantado e a banda criava a introdução ali mesmo, na hora da apresentação. As pessoas nem acreditavam que era feito no improviso.

Ele também contou como era feita a escolha do repertório para os shows e isso surpreende ainda mais. Eles escolhiam as músicas horas antes da apresentação, ainda no quarto do hotel. Xameguinho diz que Kara Veia chegava com uma música, dizia que podia montar uma introdução que o povo iria cantar, Xameguinho desacreditava, mas fazia a introdução e na hora de cantar, o público inteiro ia junto com o artista.

A MÚSICA DA VIRADA: FOI VOCÊ

Após aquele primeiro CD gravado de forma mais amadora, Kara Veia foi fazer mais um, dessa vez ao lado de Perreca. Ele marcou com Xameguinho para ir em casa e para começar a planejar e pensar no CD, mas em um certo dia, completamente do nada, ele ligou e disse para Xameguinho ir ao estúdio, pois eles já gravariam as músicas. Nesse dia ele cantou a música Foi você, um dos seus grandes sucessos. Kara Veia, inclusive, é compositor de todas as músicas deste trabalho. Xameguinho ajudou achando o tom dele, criou uma introdução e o CD foi todo gravado ali, neste dia. Você pode escutar a versão da música Foi Você logo abaixo.

Aí é possível notar que a música é gravada realmente de uma forma um pouco mais amadora, mas ainda não havia sido ali que ele estourou de vez no forró, a música reapareceria em um novo trabalho dele futuramente, mas antes vamos contar outra passagem da história do cantor.

O SUCESSO COMEÇOU A BATER NA PORTA

O grande sucesso ainda não havia chegado, mas Kara Veia já havia virado um rosto conhecido pela região, principalmente nos interiores e em estados como Alagoas, Sergipe e Pernambuco. Xameguinho contava que, certa vez, eles foram fazer um show em uma festa no estado de Sergipe e, além deles, as atrações eram Amado Batista e Calcinha Preta. Enquanto as bandas tinham dois ou três ônibus, uma grande estrutura para o palco e muitos funcionários trabalhando, eles chegavam em uma van e mal tinham uma abertura para o show, tocando apenas um pedaço da música Asa branca, de Luiz Gonzaga. Ainda assim, ele fez um dos shows mais aguardados da noite. O próprio Xameguinho diz que ficava surpreso com o tamanho do gosto do povo por Kara Veia.

Mas foi em um show na cidade de Viçosa-AL que a sorte realmente virou. O prefeito estava em cima do palco, era dia das crianças  e ele pediu para que uma música "de criança" fosse tocada, mas Kara Veia disse que era vaqueiro, não tinha uma música de criança para tocar. Então que surgiu a música Filho sem sorte, uma toada de Heleno Gino e Ivone Leão, que Xameguinho nem conhecia, mas Kara Veia disse que iria tocar. Xameguinho criou a introdução da música ali mesmo e eles cantaram. Para a sorte deles, o responsável pelo som gravou a música e essa gravação começou a chamar a atenção de um estúdio profissional, em Recife-PE.

PRIMEIRO CD DA CARREIRA SOLO E SUCESSO

E foi justamente essa oportunidade, no estúdio Somax, na capital Pernambucana, que mudou a vida do alagoano. Ele regravou a música Foi você, também gravou Filho sem sorte, Mulher ingrata e fingida, Sonho colorido, Agora é minha vez, De braços abertos, Cação de vaqueiro, Sua Ingratidão, Eu e você e muito mais. 

O CD, até onde se tem notícias, vendeu mais de 100 mil cópias e foi um verdadeiro sucesso. Bandas que já vinham fazendo sucesso na época, como por exemplo a Saia Rodada, regravaram as canções do artista e daí em diante ele já era um cantor reconhecido, foi quando ele chegou ao seu auge. Abaixo você pode ouvir a segunda versão de Foi você, já mais bem construída.

A TRAGÉDIA

Muito se fala sobre como foi o fim de Kara Veia e sobre como foi a sua morte. E aí nós voltamos lá para o início, quando muitas pessoas, atualmente, acabam criticando a esposa do cantor sem ter o conhecimento de como foi a história. Kara Veia não soube lidar com o sucesso e nem com o dinheiro que começou a ganhar e quem falou sobre isso foram justamente Nilda e Xameguinho seu grande parceiro.

De acordo com Nilda, todo o dinheiro que ele ganhava era gasto com mulheres, ele saia para se divertir, aproveitar, ir em festas e encontrar outras mulheres. O próprio Xameguinho conta, em uma passagem, que eles estavam em Recife-PE uma certa vez e passava o tempo inteiro ligando para uma mulher, mas essa mulher não era sua esposa. E as ligações, quase sempre, eram em tom de cobrança, por ciúmes. Xameguinho disse que chegou a falar para o amigo parar de fazer isso, assim como o dono do estúdio, diziam para ele dar mais atenção para a família dele que estava em casa. Xameguinho também dizia que o amigo vivia muito estranho nas semanas que antecederam o incidente, que parecia estar com depressão, mas isso nunca ficou clinicamente comprovado.

Lenilda contou como foram seus últimos contatos com o marido: Ela conta que ele saiu de casa e foi para Chã Preta-AL, mas passou dois dias e não voltou. Ela então ligou para ele e ele disse que estava na cidade bebendo. Depois ele voltou para casa com o pai, entrou e pegou uma arma que tinha, dizendo que voltaria logo. Depois disso, Nilda nunca mais viu o marido. A casa em que eles moravam, inclusive, nem havia sido paga, faltando dez mil reais para pagar a dívida.

Já o pai, em depoimento a policia, na época, disse que estava no apartamento do filho em Maceió-AL, onde ele vivia parte do tempo com a outra mulher. Kara Veia pediu para que o pai descesse. Ele desceu, mas quando retornou ao apartamento, já encontrou o filho sem vida.

"Com o sucesso, tudo mudou. Ele deixou de ser a pessoa de antes. Se deslumbrou com o dinheiro. É triste, se ele fizesse as coisas dele e viesse para casa, nada disso teria acontecido, mas é o destino, porque quem mais sofreu foi ele. Ele sofreu muito pra chegar onde chegou. Hoje eu já perdoei ele e peço para que Deus o coloque em um bom lugar", disse a esposa do cantor.

Em outro relato, Nilda comenta uma fala do artista antes do acontecido, como se estivesse avisando o que aconteceria.

Ele deitou no meu colo e disse que não sabia o que estava acontecendo com ele, porque ele estava desse jeito e que não queria ser assim. Ele levantou, pegou o carro e foi para Chã Preta-AL. Dormiu lá, quando voltou, pegou a arma, disse que ia ali e voltava já. Aí eu só recebi a notícia da morte

E essa foi a história de Kara Veia, um artista que viveu apenas 30 anos, tirou a vida quando vivia o auge e até hoje não sabemos o que se passava em seus pensamentos, nem saberemos. Mas apesar dos erros e acertos, um legado foi deixado e isso também é bastante dito na fala de alguns artistas que o tem como referência musical, um dos maiores deles, Tarcísio do Acordeon.

Eu acho que se Kara Veia fosse vivo ele seria um dos maiores ícones da musica brasileira e teria levado o forró e a vaquejada pra outro nível. O Brasil todo iria ver, a vaquejada é muito vista no nordeste, mas se Kara Veia fosse vivo ele teria levado a gente para outro nível. Mas eu acho que tudo é no tempo de Deus e infelizmente aconteceu essa tragédia

Tarcísio chegou a gravar um CD inteiro cantando apenas músicas de Kara Veia, como uma homenagem:

Este foi um pequeno resumo da história de um dos maiores cantores de forró de vaquejada na história, o eterno e saudoso Kara Veia.